O PASSADO DA POLÍCIA
Posted in Principal on 08/29/2011 09:52 pm by Evandro Farias
Certo dia. Num certo Estado de um País distante, um garoto achou que a Delegacia de Polícia que ficava perto de sua casa, era cinzenta, feia, o atendimento era ruim e os salários dos policiais eram irrisórios para exigir um atendimento e uma produtividade excelentes.

Quando ele se tornou mandatário, mandou construir Delegacias de azulejos cor-de-abóbora, com tudo novo, mas sem registros e sem passado, sem idosos e sem SAO. Neste caso, para onde iriam os casos pretéritos? Para onde iriam os processos, os inquéritos, as apurações, os valores, os bens, os servidores, os carros, o Cartório com seu pomposo Escrivão de Polícia, cujo Código de Processo Penal vigente, o incumbe de ser o único a lavrar Autos?
Foi então que surgiu a solução do problema. Em cada Unidade nova que surgia, surgia também uma Unidade velha que ficava abandonada, desmobilizada, desativada,

suja e mal iluminada. Logo, ali estava a solução. Transferiram para aquele prédio moribundo, as velhas apurações, os velhos inquéritos com suas capas desbotadas. E, para mantê-los aquecidos, nada melhor do que mandar para lá os policiais velhos,

idosos, doentes, internados, de Bim, readaptados, revoltados, desprestigiados, paraplégicos e moribundos, comandados por um único Delegado, também velhinho, que trabalhava de segunda a sábado, talvez inútil para uma Delegacia nova. Os carros, chamados de viaturas, velhos, sem pneus, sem radio, sem bancos, cheios de defeitos foram ancaminhados para esta ancestral Unidade. As máquinas de escrever eram as velhíssimas Remington sem fita e faltando teclas.

Lembramos daqueles ventiladores pretos sem grade e aqueles grandões de pedestal, foram para lá, alguns funcionando ainda com barulho suportável. Naturalmente sendo uma unidade policial, deveria ter armas e assim, mandaram aquelas metralhadoras INA enferrujadas, algumas espingardas usadas e revólveres calibre 32, fuzil rasinge e metralhadora Thompson. Relativamente à munição, receberam algumas que haviam sido destinadas a jogar no lixo, pois estavam vazando substância e não deflagravam mais.
Desta forma, estava semi-preparada e remontada a Velha Delegacia. Nesta Unidade, chegavam 30 mil inquéritos, 40 mil investigações preliminares, 5 mil processos da Justiça, devolvidos. Sendo aproximadamente 75000 procedimentos de diversas Delegacias desativadas



e tendo as Unidades cerca de 10 servidores expulsos das novinhas pelas condições físicas e aparência, mau vestidos, barbudos e cheirando a cerveja, com àquelas viaturas no estado e com aquelas armas, máquinas etc. matematicamente ficavam 7500 tarefas para cada homem sobrevivente.
Mesmo nestas condições, os idosos agentes davam sua contribuição. Pegavam os inquéritos com cerca de 20 anos de idade, sem autores, folheavam e vendo que ainda faltavam os laudos, as intimações das testemunhas, das vítimas e dos autores, onde havia apenas a cópia de um registro de ocorrência e imaginavam: o que fizeram nossos antecessores que sequer pegaram neste procedimento? Então, os agentes, sentavam naquelas cadeiras de pés quebrados,



com aquelas almofadas ensebadas, puxava para junto de uma mesa preta com gavetas quebradas de ambos os lados e com a parte de cima marcada pelo uso de anos e anos dos antebraços de tantos milhares de servidores que a usaram durante estes duzentos anos da Policia Civil e, tentando datilografar batendo na máquina de escrever com a fita rasgada e faltando teclas, elaboravam as intimações. Entretanto ao dar sede, corriam na também velha geladeira

E, empurrando o velho camburão, depois de trocar o pneu careca e furado, se armaram daquelas espingardas e foram para a rua intimar àqueles faltantes. Nas localidades procuradas, apesar da experiência dos agentes antiqüíssimos e profundos conhecedores da localidade, decepcionaram-se por não encontrar a rua, porque mudara de nome, da pessoa procurada que era desconhecida, que havia falecido ou se mudado para lugar desconhecido há anos. Tristes, voltavam para a Unidade velha, frustrados ao relatarem para o único delegado, este ainda esperneava, pois o Chefe de Polícia havia decretado uma ordem escrita que exigia de toda a Unidade, uma produtividade para que se mantivessem na direção. A maldita estatística falava que cada Unidade, destarte suas condições, deveria produzir 50 inquéritos por dia com autoria e materialidade. Entretanto se lograssem encontrarem um indiciado com mandado de prisão, o colocariam no xadrez juntamente com um monte de papel também velho

Com relação à materialidade, que são os laudos e exames de materiais que certamente deveriam ter sido efetuados na época do fato, havia uma grande decepção. Estas peças 10, 20 anos depois do ato, ainda não estavam, nos Autos. Os abnegados anciãos consertavam o motor de arranque da velha e inservível viatura e iam ao IML e ao ICE, onde pretendiam obter os laudos dos falecidos inquéritos e mais uma vez não o localizavam. As respostas eram via de regras, já foi encaminhado para a Unidade em 1945 e aqui no livro de remessa consta que quem recebeu foi o detetive Jose Carlos matrícula 000033,1. Como não havia possibilidade de encontrar o detetive José Carlos que já estava aposentado ha 30 anos e certamente não se lembraria deste fato, o Delegado, no alto da sua sabedoria, determinou que os dedicados e velhos agentes levassem um memorando a diretoria do IML/ICE pedindo o impossível: uma segunda via dos laudos…
Com esta rotina insana, os velhinhos faziam o máximo para dar a tal produtividade. E como o tempo passava e nada melhorava, as coisas iam ficando cada dia piores e a cada memorando que o dirigente mandava para a cúpula, esta devolvia com chacota. O coordenador fazia inúmeras reuniões em que os dirigentes eram obrigados a vir de longe para ouvir o decano. Nas reuniões, o sábio se limitava a contar para seus subordinados, dirigentes daquelas Unidades, a sua vida na Polícia, contando sonolentas estórias em que sempre vencia e sempre era o herói. Mas nada de concreto saía daquelas entorpecidas reuniões. Porque, na verdade, não havia solução e assim desejava o grande Chefe que durante sua gestão não apresentou nada de novo, nenhum aperfeiçoamento, nenhuma idéia, nenhum amigo, nenhuma criatividade, nenhuma solução para as angustias da Instituição e da Sociedade. Mas, apenas porque não tinha nada a ver com a Polícia, era apenas um concursado a mais. Não tinha história e nem vocação. Nunca havia sentido o gosto de sangue na boca, nunca dera um tapa num vagabundo. Era de outra casta. Não tinha culpa.
Enquanto isso na novinha, viaturas zerinho, agentes jovens e saudáveis, só computadores e ar condicionado em todas as salas e até no banheiro. Tudo muito limpo e bem iluminado. Todos de gravata e barbeados. Havia tantos Delegados jovens, que um até trombava com outro no corredor. Trabalhavam durante 24 horas seguidas com alegria e felicidade. Afinal, para este sacrifício ganhavam mais R$ 500,00 do que os inservíveis. A lotação de pessoal era de pelo menos 100 servidores. Eram tantos que na hora de investigar um fato relevante, havia disputas e brigas que somente um sorteio feito pelos delegados resolvia o problema. Os laudos? Bastava apertar uma tecla no computador que ali estava, na tela do monitor, o laudo. Era só imprimir e juntar no calhamaço de impressos que ainda se usava.
Lamentavelmente, as investigações eram computadorizadas. Os agentes, que agora era uma mistura de Escrivão de Polícia cruzado com Detetive Inspetor, seguiam rigorosamente os campos do sistema eletrônico de investigação e oitiva. Às vezes paravam diante da tela do computador, durante horas, em busca da palavra certa que mudasse de tela para prosseguir no registro do fato. Havia casos em que a paralisação era pela dificuldade da vítima em saber se a orelha do assaltante era grande, média ou pequena. Sem esta informação no sistema, ele emperrava. Os investigadores estavam algemados nas máquinas. Só passavam para o sistema aquilo que lhes chegava à estação de atendimento. Ficavam feitos robôs, entrando com dados no sistema. Acabavam ficando sem raciocínio. Mas estavam felizes. Os fatos iam se acumulando pelo engessamento do agente que passavam de um fato a outro rapidamente em face da grade do sistema cobrar e cobrar e cobrar velocidade e produtividade. Mas se não se conseguia resolver o trivial, resolvia-se aquilo que dessa mídia. Os casos que iam se acumulando, certamente o rei mandaria fazer uma nova Unidade igual a primitiva e fim.