MIGUEL PEREIRA

CAUSO POLICIAL

PASSÁGEM POR MIGUEL PEREIRA

 

Era eu, Delegado de plantão na Delegacia de Vigilância Sul, no largo da Barra, onde havia um grande silencio que foi quebrado, lá pelas 23 horas, por um jovem com cara de nerd, branco, de óculos e manga de camisa. O jovem me perguntou quem eu era e eu disse que era o Delegado de Plantão, então ele me pediu que mandasse uma viatura para o Clube Monte Líbano para dar proteção ao Secretário de Segurança Nilo Baptista, que ali se encontrava; mesmo sem saber quem era o jovem, peguei o microfone do radio e chamei a viatura que estava nas imediações e determinei que ligasse, via telefone, para a base; quando me ligaram, eu transmiti a ordem  e os policiais se deslocaram conforme a determinação.

       Então, saí do prédio e me dirigi ao jovem que estava do lado de fora, no portão e perguntei a ele quem era? Ele então me disse que se chamava Luiz Eduardo Frias de Oliveira e que era Assessor Especial do Dr. Nilo Batista, na época, Secretario de Segurança…Eu, incrédulo pedi que ele me desse maiores explicações e se identificasse como tal, pois disse para ele que era meu dia de sorte, pois eu estava entediado com o desprestígio da minha função e que eu almejava uma direção de uma Delegacia. Ele me mandou procurá-lo, no dia seguinte, no 12ª andar do prédio da Polícia. E, lá ele estava ele de terno e gravata cheio de mordomia, então eu vi que o homem era o tal; Ele me mandou sentar me serviu café com  biscoito e me perguntou se eu queria trabalhar como Delegado Titular da Delegacia de Miguel Pereira; eu aceitei de pronto .

       Luiz Eduardo ficou meu amigo. Mandou que eu procurasse um amigo dele na cidade chamado Joédisson Brizola ( o governo era de Leonel Brizola); conheci o  cara que era a simplicidade em pessoa e um parente distante do governador mas que era influente político na Cidade, morava numa casa linda que parecia um aquário de vidros e madeira. Apresentei-me a ele e disse que era enviado de Luiz Eduardo. Joédisson nunca me pediu nada!

       Na Delegacia, encontrava-se meu colega e amigo, conhecido carinhosamente por “Paivinha”  que ficou revoltado comigo pensando que eu havia pedido a saída dele para eu ocupar seu lugar. Tentei explicar e ele não acreditou, foi embora me abandonando e nem passando os atos da Delegacia. Mesmo assim eu assumi a direção.

       Encontrei uma Delegacia velhinha com policiais desmotivados, alheios ao conhecimento profissional, nada sabiam de sua missão. Eram analfabetos profissionais. Os que não serviam para trabalhar na Capital do Estado eram enviados para o interior.

       Assim, minha primeira missão era motivá-los e ensiná-los a missão. Quem comandava o cartório era um escrivão had hock que manuseava os Inquéritos da Cidade e que vinha uma vez por semana onde havia quantidade considerável de procedimentos, instauradas pelos meus antecessores, muitos Inquéritos de besteiras que poderiam ter sido resolvidos entre as partes. Mas por temor ou analfabetismo os Delegados, que me antecederam, instauravam ficando um acervo grande desnecessariamente.

       Reuni os poucos Policiais e os transformei em Escrivães de Polícia. Dei Inquéritos para eles que ficavam no plantão sem nada para fazer pois havia uma ocorrência por semana. Ensinei a trabalhar e eles ficaram felizes com a ocupação.   

       Não havia Perito Criminal na cidade! Descobri que o absurdo era pegar a única viatura (um Gurgel) e ir a barra do Piraí, cerca de 50 km, buscar um Perito Criminal para fazer as pericias que se necessitariam.

       Na Delegacia, conheci um velho servente de necropsia de pouca cultura escolar mas de uma sabedoria invejável, chamado (nunca soube seu nome), mas seu apelido era conhecido desde Pirai até Miguel Pereira: “beirinha” como era conhecido. Velho servidor de uma boa vontade e dedicação que superava todos os demais servidores da unidade.

       Quando eu descobri que sua majestade o “perito” que era buscado  a 50 km de distancia com pompa e circunstância e que depois deveríamos levá-lo a mais 50km,  não passava de um  Perito ad hoc, então, nomeei “beirinha” o Perito Criminal de Miguel Pereira. Ensinei-o a fazer laudos e economizamos templo e combustível, tendo seus laudos ficado melhor do que os de Piraí, a tal ponto que um  Inquérito de Homicídio que investigamos juntos, “beirinha” elaborou um laudo de local tão preciso que quando o Inquérito voltou, trazia no seu interior o mandado de Prisão do suspeito, por causa do Laudo do beirinha, que em um brilhante croquis, trazia o iter criminis preciso com hora e minutos metro a metro, um trabalho primoroso.

Na pequena Unidade, havia um a Carceragem com cerca de 30 presos, em cubículos apertados de 10 homens em cada um, Cuja carceragem era comandada por um Policial conhecido por badulaque; os presos ficavam numa perigosa ociosidade, imundos e maltrapilhos em ambiente fétido e sujo e pediam que eu arranjasse palitos de fósforo para que eles fizessem pequenos artesanatos; Verifiquei que na Praça havia um exposição de quinquilharia, Então, comprei muitos palitos, guache, pincel, cola, papelão, e tudo que era necessário o mandei pintar o xadrez por dentro e por fora assim como as grades, pois estava tudo imundo e enferrujado. Os presos cortaram os cabelos e tomaram banho tendo a sociedade local arranjado roupas limpas que Badulaque os ensinou a lavá-las. Os presos faziam suas esculturas que eram vendidas na praça por uma moça que geria a feirinha; quando estava tudo andando bem, fui removido para o Rio de Janeiro tendo tudo ficado para traz. Não importa o que se faça pelo bem da Polícia, isso nada vale, vale apenas para você que faz.

 

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