A MULHER SEM FACE
Posted in Principal on 06/15/2010 10:21 am by Evandro FariasCAUSUS POLICIAIS
Não me lembro à data. Mas estava eu trabalhando normalmente na Delegacia de Xerém, antiga 61ª DP, quando apareceu uma ocorrência de um cadáver de mulher na Rodovia Washington Luiz. Como era costumeiro, pessoas ao atravessar a pista eram atropeladas, pois ali não existe passarela apesar da CONCER cobrar um bom pedágio. Nenhum policial me chamou a atenção para um fato diferente de tudo que eu já havia visto. O cadáver não possuía a mascara facial. Ela havia sido cortada adredemente com um instrumento muito amolado e de fino corte e desaparecido, certamente, jogado no mato que ali é abundante.
Esperei quase duas semanas, que o IML colhesse as digitais, pois apesar do assassino ter retirado a face da vítima para não ser reconhecida, esqueceu dos dedos onde ficam os desenhos digitais. Quase no final da quarentena de cadáveres no IML para sepultar como indigente, O laudo necropapiloscópico veio “negativo” *. Entretanto, como o cadáver era de boa qualidade, em face de suas roupas, seu aspecto físico e seu cabelo bem tratado, unhas etc., exigi que novas impressões digitais fossem colhidas com mais critério e mais cuidado. Em seguida, para não perder o cadáver, fui pessoalmente ao IFP, munido das digitais e lá encontrei um dos maiores experts nesta técnica. Sidnei, era seu nome, tomou de minhas mãos a individual dactiloscópica e, em 15 minutos me disse: esta á a Sra. Leda, que morava na Rua Barão do Bom Retiro na Tijuca.
No local, encontramos netos que já retiravam algumas coisas do apartamento. Chamados a depor, contaram que Dona Leda era uma senhora ativa e se cuidava, que já havia feito várias plásticas no corpo na Clínica do Dr. Pitanguy e na Santa Casa de Misericórdia e que namorara um dos cirurgiões. E, que haviam registrado na 19ª DP o seu desaparecimento, quando dois dias antes a deixaram, com aquela mesma roupa, na Praça Sans Peña por volta das 19 horas. Dona Leda havia financiado uma VAN, recentemente para os netos, perdulários, trabalhar, e foi nesta VAN a última viagem da vítima.
Sem diretriz investigatória, pedimos aos netos que nos franqueasse o apartamento de D. Leda e de lá mandei trazer tudo que significasse anotações, papeis, documentos, agendas, cheque, carnês, atestados, receitas, exames, etc. Trouxeram três sacos cheios de papeis e eu passei alguns dias analisando papel por papel, documento por documento. O que me chamou a atenção que me deixou emocionado foi encontrar junto aos documentos uma carteira de polícia civil de um agente que trabalhara comigo na Academia de Polícia, durante anos onde fizemos amizade. Era o Altino, que segundo os netos teria sido o marido de D Leda e já havia falecido!
Aqui estava mais uma razão para eu me dedicar à investigação. Quis o destino. Diante de documentos médicos e de alguns poucos depoimentos, nos interessamos pelos cirurgiões que a haviam atendido na Santa Casa e em Clínicas sofisticadas em Botafogo. Consultamos, paralelamente, o legista que havia feito a necropsia sobre os ferimentos da face e ele foi taxativo: “isso foi feito com bisturi ou navalha, mas por pessoa que sabia o que estava fazendo pois o corte passava por de trás das orelhas, na testa e abaixo do mento”. Diante desta afirmativa apontei minhas investigações para Clínica da Santa Casa em busca do médico que teria namorado Dona leda e que era estagiário da Clínica de Pytangui, Italiano que partira para a Itália dias depois do homicídio. (apenas uma circunstância). Quando eu me aprofundava nas investigações e estava ficando “quente”, sem razões parentes fui exonerado da chefia da Delegacia! Muito tempo depois fiquei sabendo que o Dr. Paulo Souto, tinha sido convidado pelo Sr. Zarur, diretor da Santa Casa de Misericórdia, para ser mais um provedor daquela Instituição. Como ele sabia que eu era muito bom nas investigações, fica aqui a dúvida.
O que houve com um Inquérito tão interessante? Bem, com o advento do desmantelamento da forma de apurar crimes, que passou a ser feito pelos computadores, este e outros crimes foram remetidos a um tal de Acervo Cartorário e de lá para uma Central do Inquéritos, onde nunca mais foi investigado e que certamente, foi ARQUIVADO!