MINHA VIDA NA POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Posted in Principal on 05/17/2009 01:18 pm by evandroCAPÍTULO I
Era o último verão de 1962. Estava eu, servindo no Setor de Fotografia da Base Aérea do Galeão. Debruçado na janela do Setor, surge o soldado Maurílio perguntando se o Setor mantinha arquivo das fotografias tiradas quando da entrada dos recrutas. Tendo respondido afirmativamente, ele me pediu duas para se inscrever num concurso público que se encontrava em fase de inscrição. Eu então perguntei para que era o concurso e ele me respondeu que era para a PV e que eu ganharia dois salários-mínimos e a inscrição era na Av. Mem de Sá 156.

Recortei na hora e dei as fotos ao Maurílio. Em seguida, me municiei dos documentos necessários e fui me inscrever também. Naquela época as inscrições dos concursos eram grátis. No meio da quantidade de jovens, somente homens, me informei de um curso preparatório para obter sucesso nas provas e me disseram que em Anchieta, um bairro da zona norte do Rio de Janeiro, havia um ótimo. Inscrito, tomei o ônibus Castelo-Anchieta na Av. Brasil em Bonsucesso onde morava e me desloquei para Anchieta. O ônibus estava lotadíssimo, naquela época, mas mesmo assim eu fui para Anchieta. Lá encontrei a casa pelo endereço e fui entrando, quase não havia lugar, parecia até o Curso do Glioche. Dentro, um tímido professor passava as quatro operações aritméticas na lousa e em seguida passava um ditado de palavras soltas. No término das aulas me dirigi ao professor perguntando se era aquilo que iria cair na prova escrita, tendo em vista que ele a cada minuto durante a aula ameaçava os presentes com frases do tipo estudem a prova vai ser difícil! Ao perguntar ele me disse que sim e que eu deveria me debruçar nos livros etc etc. Quando eu falei para ele que tinha o segundo ano ginasial, onde aprendia, na época, trigonometria, geometria plana e analítica, inglês, Frances e latim, alem de álgebra, ele quase me expulsou da sala gritando que eu não precisava de nada e que eu já estava aprovado. Voltei para casa com o peito estufado de orgulho. Aprovado no concurso fui encaminhado para a Quinta da Boa Vista, em frente ao Jardim Zoológico, onde hoje há um estacionamento. Lá havia um mar de homens aprovados, perfilados em grupos de 30 que se chamavam: turma A, turma B, e assim por diante. Como eu cheguei mais tarde em face do desembaraço da baixa na FAB, formei na turma U,

ao lado de um negrinho magrinho com lindo sorriso branco. Eu ganhei o numero 3346 e este negrinho era o 3344. Cheguei à conclusão que aquilo era um curso oficial, onde aprenderíamos as noções da nossa missão futura. Nada se ouvia os palestrantes que falavam à turma em tom moderado num campo aberto onde conversávamos no fundo. Nada aprendemos. Ficamos ali um mês e em seguida recebemos um documento que nos mandava para diversos lugares. O meu me encaminhava para a Ilha do Governador, na Rua Praia Formosa do Zumbi Sn para que eu me apresentasse ao Fiscal Basílio às 22:00 horas de um determinado dia de janeiro de 1963. Assim fiz. Vesti um paletó usado com uma japona da FAB por cima e me apresentei ao Basílio. Na apresentação, ganhei o primeiro “esporro” no Serviço Público. Você sabe que tem que chegar às 22:00 horas e me chega às 22:20 horas, aos gritos. Mandou que eu fosse a um cantinho da sala onde havia uma fila de pessoas e ali um cara me entregou um revolver calibre 38 e seis balas, uma caderneta com endereço de onde eu deveria ficar e um cassetete preto de borracha, assinei um livro e recebi ordem de proceder para o logradouro. Era uma noite fria na Ilha do Governados que por volta das 23:00 horas tinha um sereno leve e era um deserto. Não se via uma só pessoa. Não havia nenhum comercio aberto. Era um silencia aterrador. Só eu naquela pracinha da Rua Capitão Barbosa. Me encostei numa arvore que ficava junto a um banco de cimento e ali cochilei . Subitamente, por volta das 03:00 horas aparece um jeep cinzento com uma faixa amarela na lateral. Eu me aproximo da guia da calçada e eles param próximo da minha curiosidade quando perguntam se eu vi o guarda de serviço na praça. Respondo negativamente esclarecendo que somente eu estava ali desde as 22:00 horas. Em seguida eles encaixam a primeira marcha e se deslocam. Eu volto para meu aconchegante banco quando, eles dão marcha-a-ré e me chamam. Vou até eles que me perguntam o óbvio: o que você está fazendo aqui a uma hora destas ? Eu respondo contando uma pequena história. Fiz um concurso para a PV e me mandaram para cá a fim de permanecer aqui até as 06:00 horas da manhã. Os caras iniciaram um sorriso que em seguida foi cortado pela piedade que dei a eles e me disseram: garotão, o guarda da praça é VOCE! Em seguida me deram a primeira aula de polícia que eu havia recebido na vida. Perguntaram pela arma eu mostrei que estava de cano para cima dentro do bolso da japona e as balas estavam em outro bolso e que eu nem sabia como usar aquilo. Mostraram-me como usar e me disseram que havia um Código Penal um Código de Processo que a Delegacia era ali perto ( 37aDP) e que eu deveria zelar pelas residências e o patrimônio daquele lugar e qualquer coisa estranha deveria ser levado para o Comissário da 37ª DP. Assinaram a minha caderneta e foram embora. Dali em diante me achei super-homem, pois descobri que eu era Policial igual aos filmes americanos que havia visto. De manha voltei ao Distrito devolvi os aparatos e ao chegar em casa dei a boa nova para minha mãe: Mãe advinha onde arranjei um emprego? E ela curiosa recebeu a notícia bomba: Mãe, estou na Polícia!!! Meu Deus!! Que horror!! Saia imediatamente. Isso é para vagabundo, para marginal, isso não presta para você etc. etc. disse ela com os olhos esbugalhados. Eu fiquei meio surpreso, mas havia arranjado alguns amigos e como não tinha nada melhor para fazer continuei nos plantões dia sim dia não na Ilha e o grupo de amigos foi crescendo, fui gostando e fiquei.
CAPITULO II
No 20º DV (nome da Unidade Policial da Polícia de Vigilância) me sobressai em face ter sido amigo da FAB do José Zenito da Silva, PV, que me apresentou ao Fiscal Gozzini que era o Titular da Unidade e então passei a ser o Escalante do 20º DV. Cargo de alta responsabilidade. Tudo ía muito bem quando ocorreu o carnaval de 1965 onde eu deveria fazer as escalas de serviço para sexta-feira, sábado, domingo, segunda, terça-feira e quarta-feira. Como a Escala era elaborada com os números dos guardas, fiz uma confusão imensa. Escalei guardas em dois lugares ao mesmo tempo, teve guarda que não entrou na escala, teve guarda que trabalhou todos os dias, uma confusão danada. Como não me foi permitido consertar a cagada, fui mandado para compor o 39º contingente no Presídio da Ilha Grande. Passei 39 dias naquele parasidíaco lugar.


Ao voltar à terra firme estava designado para prestar serviço na radio patrulha. Serviço de pronto atendimento em fusquinhas com dois homens via solicitação de rádio a bordo. Foram momentos de grande tensão. Foi meu batismo de fogo. Fazíamos de tudo desde parto na viatura até encarar bandidos armados. Eu era bem acompanhado por dois excelentes colegas: Fiscal Galdino e Sergio Gasolina, já falecidos.
Quando tudo transcorria no maior aprendizado que a Polícia já deu. Fomos obrigados a fazer Curso de datiloscopia na Escola de Polícia da Rua Joaquim Palhares no Estácio com o fim de suprirmos identificadores nas Delegacias Policiais. Aquilo foi um grande salto para a cultura jurídica da nossa Polícia de Vigilância, em contato com Comissários e Delegados aprendemos o Direito Penal usual e prático, a elaborar Autos processuais e a tomar depoimentos de Inquéritos Policiais. Tanto que despontamos como os melhores policiais do Rio de Janeiro e fomos transformados em Agentes de Polícia Judiciária (jocosamente chamados de APJ). Isso estimulou a todos a procurar as Universidades de Direito para fazer carreira de nível superior.
Com meu conhecimento de fotografia (constava na minha ficha) a Escola de Polícia carecia de técnicos para sustentar os Cursos de Perícia de Acidentes de Transito. Logo eu estava no laboratório fotográfico da Escola juntamente com o perito criminal Nelson Majdelani que depois foi acessado ao cargo de Delegado. Ali fiz o Curso de Perito em Acidentes de Transito, fui transferido para a radio-patrulha novamente onde exerci a função de Perito dos Acidentes na cidade do Rio de janeiro, durante um ano. Era pomposo. Após as batidas, as patrulhas que não dispunham de peritos aguardavam no local a vinda da viatura que tinha perito de transito. Quando eu chegava era uma festa. Desobstruía as vias, elaborava o laudo na hora e todos saíam felizes. Essa empolgação não durou muito.
Em seguida, o governo adquiriu a garagem da Nashua Veículos, na rua Frei Caneca 162 para onde foi transferida a Escola de Polícia da Rua Joaquim Palhares . Ali eu fui encarregado de instalar um laboratório fotográfico pelo insigne Delegado de Polícia Dr. Aloísio Cesar Fernandes. Uma cultura. A esta altura eu mais maduro descobri que havia um convenio entre a Policia Civil com a Embaixada Americana, num programa denominado Ponto IV. Nesta época foi designado para a Escola de Polícia o maior dirigente que ela já teve em toda sua existência. O coronel do Exército Renato Rocha, professor do Colégio Militar que nos honrou com sua gestão empreendedora. Tendo reformado a Escola de Polícia, com sua inteligência trouxe exames do DETRAN para a Escola de Policia onde gerou um Grêmio que arrecadava recursos e aplicava na própria Escola, fazendo dois grandes prédios que até hoje abrigam os alunos. Num dos prédios, àquele que fica a Direção atual no térreo, após sua construção, instalei ali um laboratório de fotografia, cinema, imagem e áudio Paralelamente eu lecionava diversos Cursos como : dactiloscopia prática, com colaboração do papiloscopista Nilton Evangelista do Amaral; lecionei Pericia de acidentes de tráfego, auxiliando o Dr Macedo Soares – perito criminal engenheiro, Código de Transito, juntamente com o apj Hermes, para Agentes de Transito, fotografia judiciária, telecomunicações por telex e radio com código Q e fraseologias usuais.
Nesta época eu estava no meu apogeu. Quando surgiu primeiro Concurso para Detetive-Inspetor. Cargo que receberia 10 salários-mínimos enquanto eu ganhava três. Estudei demais na biblioteca da Escola de Polícia, com ajuda do meu colega Edson Madeira, Gabriel Batista da Rosa, Polívio Bahiense. Deus me ajudou e logrei aprovação no Concurso. Este concurso me proporcionou conhecer pessoas incríveis. Eles me honraram com a título de Xerife da Turma por eu já ser policial na época. Os novatos detetives-Inspetores, a maioria de marículoa iniciada pela centena 174, era formado em alguma Faculdade ou estava cursando. Tratava-se de uma plêiade de maravfilhosos e cultos policais como jamais houvera desde o Brsil Inmpério, em qualquer concurso para este cargo público. Na sala de aula, alguns se sobresaíam como o Helio Celestino que falava à turma en


turma feliz

CAPÍTULO III
Em Mendes, município do Estado do Rio de Janeiro, com acesso por Paracambi. Ao chegar, fui recepcionado pelo investigador José Paulo Rangel Viana que era o chefe do SIP, da SÃO, de tudo; Rangel me recebeu bem e disse que aguardasse o Dr. Benedito Setembrino de Carvalho chegar e me mostrou uma parte central da cidade. Almoçamos e em seguida, Dr. Setembrino já estava na Delegacia. Era um caipira alto magro e barrigudo, seus cabelos já estavam embranquecendo, mas apertou minha mão e me deu boas vindas. Ficou muito feliz com a minha presença e me contou um pouco da Delegacia e determinou que eu ficasse cuidando da Seção de Administração, pois a chefe iria ser transferida e eu teria vindo para seu lugar. Conheci a sala e me dediquei ao trabalho. Nesta Delegacia de nr. 98, só haviam quatro servidores policiais, um preso (seu Pedro) que atendia o radio e tirava plantão na falta de um de nós. Logo, para uma escala de 24h x 72h, estaria sempre um policial na cidade. A cidade de Mendes era gelada, com poucas pessoas transitando, perto da DP só passavam carros em velocidade, moravam poucas pessoas no em torno. Ao lado havia o Clube CIPEC que era dos funcionários de uma fábrica de papel. Estava tudo acertado quando um dia a Corregedoria do Estado do Rio de Janeiro, na pessoa do Dr. Mario Cesar Fernandes, figura carismática sisuda e com grande poder. Seus cabelos grisalhos e sua baixa estatura transmitiam respeitabilidade. Naquela época os mais experientes e mais antigos, ocupavam os postos mais alto da Polícia Civil. Havia hierarquia. Com a chegada de Mario Cesar, este exigiu do Dr. Setembrino que restaurasse a hierarquia na DP. Fez-me Chefe da SÃO (Seção de Apoio Operacional) que era chefiada pelo investigador Rangel e só poderia ser chefiada por Detetive-Inspetor. Rangel ficou com o SIP e Helio ficou com a SA e Razuck com o Cartório, pois Escrivão, dos bons, ele era. Vendo que Rangel ficara incomodado, pois ele era o rei da cidade, disse para ele que continuaria prestigiado por mim para continuar sendo o rei, fora da DP. Daí em diante a administração ficou ótima. Daí ficamos amigos até sermos transferidos para São Pedro DAldeia. Rangel não quis ir. Em São Pedro, em face dos meus conhecimentos adquiridos na Acadepol no Curso de Inspetor e minha passagem pela 98aDP, eu já estava bem profissional. No meu primeiro dia de trabalho, mataram um homem na localidade de Campo Redondo. Eu e a rapaziada da Delegacia estávamos almoçando no Costa do Sol. Por sorte, estacionamos a viatura ao lado da mesa, na varanda do restaurante e ouvimos pelo radio a ocorrência. De São Pedro, só haviam duas saídas então, na mesa, perguntei aos policiais mais antigos se não havia posto da PRF ou da PM nestas saídas e um deles disse que havia em Rio Bonito um posto da PM e que atendiam nosso radio em outro canal. Passei um radio dali mesmo, para a cabine da PM e descrevendo o veículo e os homens, foi fácil demais. Prenderam, trouxeram e Dr. Setembrino os autuou. Daí foi uma gestão maravilhosa, com m muito sucesso, muitos crimes esclarecidos, muito camarão e muitos amigos que lá deixei quando fomos removidos para Rio Claro.

Eu detetive-inspetor chefe de SAO, todo poderoso, esperto e habilidoso. Não formado, mas já era um rábula. Nesta Delegacia, que era uma linda casinha de madeira envernizada e nova, um mimo, um morador, trambiqueiro e estelionatário, conseguiu induzir o Juiz e o Promotor de que ele era o cidadão respeitável e o Inspetor Evandro era o criminoso em dois casos: primeiro ele vendia um mini sitio para um incauto impondo pagamento em parcelas com clausula de que se não pagasse três parcelas perderia o sítio. Nas primeiras vezes deu certo e ele ganhava a vida assim. Na terceira vez ele vendeu para um carioca chamado Augusto que teimou em pagar e o perseguiu com o dinheiro até achá-lo. O trambiqueiro topou com Augusto e tomou dele a promessa e alguns recibos não querendo devolver. Veio a DP, que se Instaurou Inquérito Policial, o Delegado emitiu um mandado de busca e Apreensão na casa do trambiqueiro respeitado na cidade. Dada a busca na forma descrita no Código de Processo penal, com pompa e circunstância, com leitura e testemunha, nada foi encontrado. Mas, o trambiqueiro arranjou advogado que entrou com um Processo de abuso de autoridade Lei 4898/1965, fui julgado e absolvido pelo Mandado de Busca que constava na minha defesa, feita por um Defensor Público por mim requerido, tendo em vista que Policiais praticam atos legais, são vítimas de inescrupulosos advogados, processados e o Estado não os defende automaticamente e muito menos a Assessoria Jurídica da Polícia Civil. Mas mesmo assim, fiquei com uma seqüela indelével: anotação deste crime na minha Folha de Antecedentes. Dias depois, por pura falta de sorte, uns capatazes deste estelionatário foram tentar roubar na cidade. Denunciado por uma das vítimas que não sabia quem eram os cavaleiros que fugiram noite a dentro, veio à DP e eu mais uma vez peguei a viatura e fui atrás, naquela noite escura vi os cavaleiros correndo e atirei para o alto com a escopeta que fazia grande barulho. Os ladrões se embrenharam pelo mato e o patrão deles, pegou as cápsulas da escopeta e fez uma notícia crime ao Promotor que foi acolhida pelo Juiz e me denunciou no art. 139 (exposição de perigo) que foi arquivado, mas fizeram a segunda anotação na minha Folha de Antecedentes do IFP. Ali naquela cidade, perdemos um grande Delegado. Ficou doente, se internou próximo à sua casa, em Copacabana na Rua 5 de Julio e faleceu em seguida. Delegacia acéfala. Eu continuei praticando os atos administrativos até que outra Autoridade assumisse. Certo dia veio o Delegado de Mangaratiba, Dr. Otelo de Oliveira, fumante, posudo e autoritário, acompanhado de seu séquito. Eu, por acaso estava na DP. Ao chegar foi logo gritando Ô Inspetor traga-me o expediente para despachar! Atendi-o com temor e voltei para minha sala contígua. Em seguida ouvi-o dizer: Ô Inspetor, que besteira é essa que você escreveu aqui. Há Há Há e seu séquito o acompanhou na gargalhada. E disse: como você pode escrever que o machado e a corda, que fazem parte do corpo de delito foram encaminhados ao ICE? Corpo de delito tem a ver com o corpo das vítimas e não com materiais, o nome já diz: corpo do delito. Neste momento me indispus com a Autoridade. Pensei que ele estivesse debochando e protestei juridicamente dizendo que a culpa não eram minha e sim do Código de Processo Penal. E ele me disse: Este Processo Penal é do Judiciário, o nosso é diferente. Diante de tanta burrice, me retirei sem nada falar. Em seguida ele foi tomar café com seu séquito que, certamente, o esclareceu que eu estava certo e ele estava errado. Deve ter sido difícil. Mas, ao voltar do café ele estava formado em Direito. Pois me estendeu a mão e me pediu desculpa humilhado. Daí para frente ficamos bons amigos e ele sempre me chamava de corpo de delito. Hoje ele descansa no céu.
CAPÍTULO X
A MELHOR TURMA DA POLICIA CIVIL
Minha História, que é igual a de todos os 83 Delegados de 1990.
Era eu, Detetive Inspetor da 18ª Delegacia Policial da Pça. da Bandeira no Rio de Janeiro, onde o Delegado Titular era o lustre Doutor Mauricio Martins Teixeira Côrtes. Meses antes, a Assembléia Legislativa havia aprovado uma lei que modificava a Lei 699 que cuidava do ingresso na Polícia Civil através de Concurso Público. Essa nova lei tornava eliminatórias as provas de Direito Penal e de Processo Penal exigindo em cada uma a nota mínima de 50; Por outro lado, estava em vigor o Decreto 3044 que trata do Estatuto dos Policiais Civil e que trazia as normas para o Acesso Interno, onde estabelecia que na prova inicial para freqüentar o Curso de Acesso, o candidato teria que obter nota 50; somente na prova final deste Curso chamado de Curso de Formação, o candidato deveria obter 50 por matéria, que eram: Direito Penal, Direito Processual Penal, , Direito Constitucional, Direito Administrativo, Direito Civil, Medicina Legal, Pratica de Investigação Policial. Em 1987 o então Secretário de Segurança fez publicar um Edital dentro de um a Resolução (ato administrativo) para os Policias que reunissem algumas características pudessem ser Acessados a carreira de Delegado de Polícia. Estas características eram: ser bacharel em Direito, ser de Primeira Classe na carreira de agente e ter mais de dois anos nesta última classe. Entretanto, pecou o ilustre Secretáio Saboya. Induzido por autoridades alienígenas interesseiros que não queriam o Acesso, misturou a Lei 699 com o Decreto 3044, fazendo uma salada legal que quase atrapalha a maioria dos agentes de ser acessada. Introduziu provas eliminatórias de Penal e de Processo com nota mínima de 50, para o acesso regido pelo Decreto 3044. Saboya foi induzido a fazer uso da Lei dos concursos públicos para a progressão interna da Polícia, que havia sido modificada com esta exigência.
Consequência: centenas de Policiais, inclusive eu, por terem recebido nota menor que 50 na Prova de Processo Penal, estavam cortados do prosseguimento do curso de formação. Quando eu me vi reprovado na matéria que eu mais sabia, (haviam me concedido 40 pontos) copiei durante a vista de provas, as perguntas e as minhas respostas e levei para três catedráticos de Processo penal em três Universidades e estes acharam um absurdo a nota a mim atribuída. Todos davam mais de 70 pontos nesta prova. Mais tarde fiquei sabendo que os mesmos que induziram o Saboya a misturar as legislações a fim de “peneirar” o Acesso, também haviam recebido ordem secreta de distribuir nota menor que 50 na prova de Processo Penal.
Sem poder provar nada, juntei alguns amigos e prosseguimos na nossa estratégia. Fui juntamente com o Mitiriatedes Santana, o Adilson Padre e o Nilton Pereira perambular pelos corredores do Forum na lâmina destinada às Varas de Fazenda Pública a fim de averiguar se alguma Vara da Fazenda havia concedido medida liminar para que alguém continuasse no Curso de Formação, pois os reprovados estavam impedidos de prosseguir e correram para o Judiciário com seus advogados caríssimos. Nós, não tínhamos advogado e quando constatamos que a 7ª VFP concedera uma medida liminar para um grupo que ali havia distribuído seu Mandado de Segurança, Redigimos, no corredor do Fórum, um pedido de “litis consorcio” a assim obtivemos, também, o salvo conduto para continuar no Curso de Formação. Neste Curso, nos dedicamos ao máximo, embora houvesse um professor que imbuído do mesmo propósito dos fazedores do Edital, queria porque queria reprovar. Mas não conseguiu. Esperava ele que nós, embora aprovados, ficássemos a depender da Justiça eternamente.
Fim do Curso. Os aprovados que esperavam ser acessados de imediato, ficaram alucinados correndo da sala para a cozinha procurando políticos, administradores, qualquer pessoa que pudesse ajudar a transpor esta barreira. Apareciam dezenas de Advogados cada um com uma Ação mais mirabolante prometendo investidura imediata. Muitos colegas prometeram os primeiros salários como honorários. Na verdade, ESTAVAMOS APROVADOS PELO DECRETO E REPROVADO PELA RESOLUÇÃO!
Em casa, conversava eu com Jorge da Silva Nascimento pelo telefone. Em certa altura, entendi que somente a mudança do Decreto 3044 (regulamento do estatuto dos policiais civis) poderia nos ajudar ou alguém que pudesse convencer o Saboya a acertar os erros do Edital. Primeiramente, Fiz uma minuta de Resolução onde dizia mais ou menos que na verdade as notas das primeiras provas deveriam ser média 50 como constava implicitamente no Decreto 3044 e não 50 eliminatória por matéria como determinava o Edital. Levei para o Diretor da Academia de Polícia (que gerenciava o Acesso) que era o Dr. Vilarinho que repudiou veementemente o sugerido. Levei o assunto, em comissão para o Chefe de Polícia que era o Dr. Heraldo Gomes e este nos expulsou de seu gabinete no 12º andar do Prédio da Chefia.
Não tínhamos nenhum apoio da Adepol ou de qualquer Delegado antigo.
Triste e perambulando pela quadra da Acadepol, juntamente com dezenas de aprovados/reprovados. Num dado momento parei e expliquei para o Jorge Nascimento que a nossa solução estava na pequeníssima modificação do decreto 3044 para que o art. 223 ficasse mais claro. Falei para Jorge que estávamos aprovados pelo Decreto e somente reprovado pela Resolução. Fi-lo ver que havia hierarquia das leis e que isso estava errado etc. que mofaríamos no Judiciário para provar isso e que somente o Governador poderia fazer Decreto corrigindo ou modificando Decreto. Eis que Jorge da Silva Nascimento acordou e disse: “se o problema é esse nós temos um colega que está na mesma situação que a nossa e corre na praia da Barra com o Gilberto Rodrigues (presidente da Assembléia Legislativa) e o Governador Moreira Franco todo fim de semana” E eu falei então me apresente a ele. Aí, apareceu um cara magro alto de óculos com cara de inteligente e com aquela fala mansa. Pois então, eu sou Mario Chadud, disse ele. O colega falou que você tem solução para nosso problema. Eu disse sim. Você tem condições de motivar o Governador a fazer um pequeno Decreto tornando o art. 223 mais claro, sem ônus para o governo? Ele disse sim, isso acho que é fácil qual é a solução? Então eu peguei um pedaço de papel caneta do Jorge e escrevi: “§Único do art 223 – o presente artigo trata-se da média aritmética das provas de seleção”. Uma semana depois, Mario Chadud, voltava radiante com o Diário Oficial nas mãos mostrando e dizendo é isso que vocês queriam, ai está. E aí foi só festa. Fomos acessados em seguida a contragosto de alguns alienígenas, que até hoje ruminam esta situação. Mas éramos os melhores homens da Polícia. Tínhamos uma bagagem de conhecimentos que a Instituição não poderia prescindir e lutamos para a grandeza da Policia Civil.
Terminada esta Batalha, começaram os fantasmas do retrocesso a nos perseguir e uns poucos colegas, muito espertos, usaram e abusaram de lançar factóides para assustar os demais. E, assim conquistaram tanto prestígio como baluartes da turma que conseguiram grandes cargos e funções nos governos que se sucederam. Os verdadeiros estrategistas de transformar Detetives-Inspetores e Escrivães de Polícia em Delegados de Polícia ficaram no anonimato.